pccmagdalena
nos anos 60 o bairro de Ipanema na zona sul rio de janeiro era o meu refugio.
Eu trabalhava como funcionário publico no cento do Rio e morava em Copacabana no Bairro Peixoto,
um lugar bucólico,com apenas 2 ruas e uma pracinha no meio que me dava um ar aconchegante de cidade do interior.
Mas Ipanema, com a sua vida cultural agitada e agitadora,me seduzia.
Fiz minha trincheira nos finais de tardes após o trabalho em um simpático bar,na rua Visconde de Pirajá,que depois viria se tornar um famoso reduto de intelectuais,músicos e artistas, que iriam modificar o panorama cultural do país.
Foi nesse bar que surgiu o cinema novo, a bossa nova e a banda.
Escolhi uma mesa no canto esquerdo de quem entra ,assim poderia ver tudo que acontecia no bar e na rua através da varanda .
Com minha assiduidade fui fazendo amigos, e em pouco tempo sempre tinha companhia para um chope e uma boa conversa,.
E a vida acontecia na nossa mesa no bar..
Pretendo contar aqui no blog em forma de bate papo,um pouco desse tempo e dos amigos que fiz.
O primeiro é o Almeidinha.
Sujeito inteligente ,de raciocínio rápido,gostava de polemicas e tinha sempre um assunto que fazia pensar.
Era filho de nordestinos retirantes e conheceu cedo o lado difícil da vida,mas mesmo assim se tornou um homem de bem,
Quando menino conseguiu um emprego como faxineiro num cartório ,lá ficou e fez carreira.
Estudou,se formou ,e depois de tantos anos é o homem de confiança do tabelião.
Apesar do riso fácil,trazia uma decepção amorosa que nunca superou. .
Certa vez no meio de uma das inúmeras rodadas de chope,deixou escapar um suspiro e o nome dela.
Fingi que não percebi,ele fingiu que acreditou que não percebi e isso criou um elo de amizade forte entre nós .
O grande barato do Almeidinha era a curiosidade pela vida dos grandes filósofos .
Era um devorador de biografias,e isso o transformou em nosso erudito etílico.
Estava no primeiro gole do meu chope quando ele chegou
Colocou o paletó cuidadosamente nas costas da cadeira,soltou o nó da gravata ,me olhou e disse :
-O que levaria uma pessoa a encher seu casaco de pedras , entrar em um rio e afogar-se.?
-o detalhe das pedras no casaco é uma forma de não permitir arrependimento.Se a pessoa quisesse voltar atrás pelo instinto puro de sobrevivencia não conseguiria.
-então você acha que o casaco com pedras era uma espécie de seguro contra a vida?
-óbvio que sim;a morte era o intuito e o objetivo
-Então você acha o suicida um ser em plena posse de suas faculdades mentais?
-Sim.Acho que a loucura é a mais perfeita forma ,e a essência da razão.Já notou como os chamados loucos são incrivelmente direcionados pelo seu objetivo?Eles não param ate atingirem a meta.
-Mas o que,repito a pergunta inicial,levaria uma pessoa ao suicídio de forma tão precisa e fria?
-Eu acho que a falta
-Falta de que ?
-Aí esta a questão, A busca pela realização completa do ser que não consegue ser .Para a maioria paliativos materiais aliviam a existência, mas para outros não.Eu acho que o suicida se encaixa nesses últimos.Talvez haja ate um pouco de narcisismo.
-e paranóia esquizofrenia e forte depressão,completaria eu
-os dois primeiros que vc citou são consequencias da depressão,eu acho,não sou psiquiatra.
-Então a melhor maneira de não se tornar um suicida na sua opinião seria tirar o peso das coisas?
-Eu acho que a vida é um jogo,algumas vezes ganhamos outras perdemos, e o segredo é saber perder e manter o que ganhou.
-Concordo.
-vc se suicidaria?
-no momento não
-para mim o suicídio é uma solução definitiva para problemas temporários
-eu já encaro como um direito de qquer pessoa..
-é?
-é...
-que nem eutanásia?
-de certa forma
-cade meu chope?
-você ainda não pediu.
E Almeidinha acena pra o Oliveira nosso garçom,
Nisso chegou Maria Lucia a musa e única mulher da nossa turma
Maria Lucia ou Lucinha como nos chamamos,beirando os 40 anos, ainda solteira, bonita,loira com lindos olhos verdes e um sorriso cativante .Era professora de historia porem trabalhava como corretora de imoveis,e estava indo bem na profissão,sempre deixava uma rodada paga de despedida para os amigos.
Conheci Lucinha numa noite que o bar estava lotado,ela e uma amiga não conseguiram mesa, e bebiam em pé perto do balcão,eu reparei e como ainda estava sozinho fiz um gesto oferecendo para sentarem comigo ,aceitaram e ficamos amigos.
A amiga de Lucinha foi cedo pois iria encontrar o namorado e Lucinha ficou .
Nos identificamos tanto um com outro que a conversa descia bem como o chope e acabamos fechando o bar aquela noite.
desde então somos grandes amigos e só.
- Ola para todos
-Ola Lucinha
-Lucinha sabe que morreu? disse Almeidinha com ar sacana
-Quem?
- o Euclides
-que Euclides?
-da Cunha
-tem tempo isso- disse Lucinha rindo
-assassinado
-legitima defesa
-vc acha?
-pelo menos o Dilermando foi absolvido
-pois é..mas vc sabe o que aconteceu de verdade?
- que eu sei é que a Ana de Assis esposa de Euclides, se tornou amante de um cadete 17 anos mais novo do que ela chamado Dilermando de Assis. Ainda casada com Euclides, ela teve dois filhos de Dilermando. Um deles morreu ainda bebê. O outro filho era chamado por Euclides de "a espiga de milho no meio do cafezal", por ser o único louro numa família de morenos. Aparentemente, Euclides aceitou como seu filho esse menino louro.
-não sabia,mas foi sacanagem dela neh?por que não se separou?
-aí,eu não sei..só sei que foi a traição dela que desencadeou a tragédia
-mas como é que foi?
-o Euclides entrou armado na casa de Dilermando dizendo-se disposto a matar ou morrer. Dilermando reagiu e matou Euclides,
-Legitima defesa ?
-pra mim foi ,já que ele invadiu a casa do Dilermando, que mais tarde foi absolvido pela justiça militar ao ser julgado.
-e a Anna?
-O Dilermando mais tarde casou-se com Anna. O casamento durou 15 anos.
-fofoqueira vc hein?
-eu??
-sabe tudo da vida dos outros
-essa tragedia é histórica,é conhecida como a tragedia da piedade,se vc não tivesse faltado a aula de historia tbm saberia.
-estou brincando...Mas valeu o chope essa tua cultura de bar
-sempre as ordens
-Agora me diz uma coisa
-fala
-E´verdade que o Gago Coutinho falava direito?
-vá a merda..
-cho cho chope Lucinha?-perguntou Almeidinha as gargalhadas
--pode pedir
uma dia por causa da chuva me atrasei e quando cheguei no bar tinha gente na minha mesa.
Era Lucinha
-ola,chegou cedo para o expediente?-disse rindo
-pois é, eu não sabia aonde ir e vim direto pra cá- disse com voz embargada a nossa musa
-fez bem.
-mas hoje não sou boa companhia
-voce sempre é boa companhia
-obrigada
-vou pedir um chopinho pra gente ok?
-tudo bem
Acenei para Oliveira pedindo dois e voltei minha atenção para Lucinha
-estou achando vc meio triste
-estou sim
-é melhor ser alegre do que triste,alegria é a melhor coisa que existe -falei cantando uma musica que tocava nas rádios ultimamente
-é verdade -respondeu forçando um sorriso
-fala Lucinha,bota pra fora-disse pegando na mão dela
-Eu terminei um caso que nunca deveria ter começado
-porque terminou e porque nunca deveria ter começado?
-ele é casado
-fez bem em terminar e mal em começar
-pois é,eu me iludi
-tem muito tempo?
-ficamos 4 anos juntos
-então a coisa era séria
-muito
- Não quero me meter mas acho que fez bem em terminar
-eu sei...perdi meu tempo com quem não me dava valor
-nunca dê prioridade a quem te trata como opção
-é verdade...
-e agora?
-agora estou entre me matar ou matar ele
-vamos considerar uma terceira hipótese?
-vamos-disse ela rindo com minha cara de assustado
-que bom...
Oliveira chegou com os chopes
-vamos fazer um brinde?-sugeri
-a que?
-a um novo mundo
-esta bem,a um novo mundo
-Boa noite que novo mundo é esse?-disse Almeidinha que chegou no momento do brinde
-estamos brindando a coisas novas
-bom ,eu hoje to precisando de um chope duplo-disse almeidinha tirando o paleto e depois beijando a mão de Lucinha.
-o que aconteceu Almeidinha?
-Hoje foi enterro de um amigo lá do tabelião e eu fui junto para dar um apoio
-morreu de que?
-de gordura
-gordura?
-pois é, ele era gordo demais, e mesmo contra a recomendação medica só comia frituras e coisas engordativas,então o coraçaõ não aguentou e ele se foi aos 55 anos pesando mais de 160 kilos.
- falando nisso, eu preciso me cuidar também,a idade vai chegando, o peso aumentando
-vc esta ótimo-disse Lucinha passando a mão no meu braço
-Obrigado,vc é muito gentil
-Mas deixa eu contar o final da historia do enterro-disse almeidinha fazendo mimica para o oliveira trazer uma caneca
-conta, fiquei curiosa-
- Então la vai Lucinha.....quando chegamos no enterro tinha havido um atraso na liberação das capelas e por um problema do cemitério só tinha uma daquelas macas para transportar os caixões ate as sepulturas.
-que coisa
-pois é,o que aconteceu foi que tinha uma velhinha na frente da fila para ser enterrada e os coveiros malandros,levaram o caixão da velhinha e deixaram o gordo avisando que devido só ter carro de transportar de defuntos, os amigos e familiares do gordo teriam que levar o caixão no braço
-complicou
-complicou mais ainda Lucinha,quando o meu patrão falou que não teria problema porque os verdadeiros amigos levariam o caixão e apontando pra mim,falou:
-Almeidinha vai pegar a primeira alça me representando
Quando escutamos isso Lucinha e eu caímos na gargalhada
-Vocês estão rindo? espera que o melhor vem agora- disse Almeidinha essa hora já falando de pé e gesticulando
-fala logo Almeidinha
-Eu perguntei ao coveiro se a sepultura que íamos levar o caixão era longe.ele respondeu assim:
-a sepultura desse senhor é no final do cemitério e na parte alta.
-Quando escutei aquilo eu gelei...fiz as contas de cabeça e o resultado foi um defunto de 160 kilos mais o caixão que era reforçado ,todo trabalhado de madeira boa,daquelas pesadas porque a família tinha posses, com as flores por cima,deveria passar dos 200 kilos,e eu tinha que atravessar o cemitério todo e depois ainda subir para a parte alta.Isso não é um enterro é uma penitencia!
-e o que vc fez?
- Eu fiquei na minha,meti a mão na alça de traz do caixão e ai você não imagina o que aconteceu
-Peraí Almeidinha, não conta agora, tenho que ir no banheiro,eu ri demais -pediu Lucinha
